segunda-feira, 25 de maio de 2026

Sobre rotina, solitude e conforto

Não sou escravo da rotina porque não encaro rotina como algo obrigatório, cansativo ou enfadonho. A rotina tem seu encanto. Hoje, p. ex.: cheguei ao trabalho bem cedo. Fiz um café forte. Agora bebo com calma e enquanto espero alguns processos desenrolarem para que eu possa trabalhar neles, escrevo essas linhas ao som do segundo álbum do Belle & Sebastian. Uso camisa cinza com gravata preta, um cardigã cinza em um tom mais escuro e um blazer de lã vintage chumbo que deve ter uns 60 anos ou mais. Sinto-me leve e em paz. Conforto e plenitude. O toque macio da roupa, a música suave e o escritório silencioso formam um ambiente perfeito de conforto diário.

Tenho vivido uma vida pra dentro há um tempo, essa vida de mais contemplação e menos ação. Calado e calmo e sozinho. Mas não solitário. Tenho amigos, porém recuso quase todos programas sugeridos e visitas solicitadas. Raramente saio de casa. Importante dizer: não estou deprimido e sinto prazer e eventual alegria em várias das coisas que faço.

Neste fim de semana acordei muito cedo, antes das 8. Fiz café, peguei Moby Dick e li na parte externa da casa, preguiçosamente, em um sofá. Todos os gatos se deitaram à minha volta e ficamos assim por horas. Fiz almoço e passei mais algumas horas lendo. Tanto sábado quanto domingo. Às vezes penso que preciso de amizades assim, amizades felinas. Alguém com quem eu possa ir para algum lugar tranquilo e ler por horas. Apenas na presença um do outro, sem bares lotados, sem barulho, sem grupos e sem drogas.

O estranho de ficar muito sozinho é que me pego pensando às vezes: quando foi a última vez que abracei alguém? Ou que tive alguma conversa real e significativa? Quando segurei as mãos ou andei de mãos dadas? Essas lembranças se dissipam como neblina. Às vezes fico o dia todo sem nem ouvir a minha própria voz. Isso não me causa desespero ou tristeza, no entanto. São apenas reflexões, como que lembranças de outra vida.

Sinto-me como algum personagem qualquer do Ozu. Cheio dessa resignação aparentemente estoica ou enraizadamente estoica, mas que quem sabe talvez por acaso às vezes provavelmente guarde, bem lá no fundo, um desespero patético, um grito mudo, uma esperança tola e insistente de ser amado.

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