sábado, 28 de março de 2026

A falta ao final

 Ao final de On The Road, apesar de tudo, Sal Paradise pensa em Dean Moriarty com uma saudade absurda, com o mesmo amor de quando o conheceu, e então entendemos que a história é um épico da nostalgia. 

Sobre pessoas que somem morrem mudam se vão desaparecem, mas que deixam uma marca indelével em nós.

Ao final do livro, numa especie de desesperança melancólica, Sal diz: 

Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe

que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice. Penso então em Dean Moriarty, penso no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos, penso em Dean Moriarty.

-*-

Eu penso em você.

20 anos de álcool

 Comecei a beber com 19 anos de idade. Tudo em minha vida foi assim, tardio. Ainda é. Por 20 anos eu bebi. Pouco, mas consistentemente. Tenho, claro, algumas dezenas de porres colossais em meu histórico.

Com a pandemia comecei a consumir muito álcool. Bebia 2 garrafas de whisky por mês, fora os vinhos e cervejas. Engordei e minha cara estava inchada. Gastei muito dinheiro. Há uns 2 anos tenho diminuído o consumo. Mas há quase 2 meses bebi uma garrafa de whisky inteira em uma festa de despedida de um amigo. Passei muito mal depois, por dias. 

Aí resolvi parar de beber. Em 20 anos, é a primeira vez que fico um mês sem álcool. Resultado: emagreci. O rosto afinou e a disposição geral (intelectual, física, sexual etc) aumentou brutalmente. Sinto-me leve e sempre animado. Não quero beber mais e não sinto falta. Talvez, daquela taça de vinho para acompanhar uma massa. Mas eu aguento isso. Não uso nenhum tipo de droga, nem charutos eu fumo mais. Sinto-me com 19 anos, como era antes de começar a beber. 20 anos de álcool é o bastante para toda uma vida. 

A vida que segue

 É sábado. Acordei antes das 08:00h. Minha gata que sempre dorme aos meus pés veio pedir carinho. É o jeito dela me dar bom dia.

Coloquei uma playlist de folk no spotify, bem baixinho. A luz entra delicadamente através das frestas na cortina. 

Vou fazer um café e passar cerca de 3 horas lavando e lubrificando a moto,  sem a menor pressa. Após o almoço,  retomarei a leitura de Os Buddenbrook, do Thomas Mann. 

Sinto-me feliz no outono, sinto-me em paz. Ao fim da tarde pegarei a moto e sairei por aí, banhado na dourada luz do ocaso outonal. Dentro do capacete estarei com um leve sorriso...

Depois, um longo banho e algum filme. Então, mais leitura e mais sono. É a vida que segue...




quarta-feira, 11 de março de 2026

Chuva. Café quente. Fleet Foxes. Blusa confortável. 8 horas de sono. Comecei o dia feliz!

Encontro conforto nos detalhes da rotina. No básico. Não todo dia, claro. Não sempre. Mas hoje, sim. 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Frustração e medo (diário de sonhos)

    Há sonhos que sempre me assombram. Sonho com incomunicabilidade e traição. Sempre com as mesmas pessoas. Eu não consigo me fazer entender e tampouco consigo entender a outra pessoa, o que a motivou agir de tal e tal forma. Passo, assim, o que parecem ser horas remoendo significados, sentimentos e ressentimentos. Acordo irritado e exausto.

Sobre o que eu não sou e sobre um espectro:

 Não guardo rancor. Não tenho ressentimento. Não brigo por coisas do passado e tampouco levanto o passado em qualquer eventual e rara discussão. Não mesmo. Mas...

... Há um ditado: quem bate esquece. Quem apanha nunca esquece. O mesmo vale para traição. Mas antes de entrar nisso, um pequeno parêntese: desejar outras pessoas é normal, é natural, mesmo para quem é casado. Somo humanos, afinal. Esse desejo, por parte de um homem hétero (eu, no caso), pode ter como "alvo" a Dua Lipa ou a atendente do supermercado do bairro (que é a mulher mais bonita que já vi em minha vida). É um desejo que, devido à sua incapacidade total realização por motivos de ética e moral (fidelidade, respeito), passa a ser apenas admiração distante. A Dua Lipa é, para mim, tão inalcançável quanto a caixa do supermercado. Eu poderia engajar alguma tentativa com a caixa? Teoricamente, sim. Mas meu respeito por minha parceira e o fato de eu ser sempre fiel me impedem sequer de cogitar tal atitude horrível. Não me incomoda ser assim. É como sou. 

Há anos sou assombrado por um espectro, originado de uma traição que ocorreu mais de uma vez. Perdoei. Mas não esqueci. Nunca. Isso ainda machuca e me enche de medo e dúvidas. Ainda, mesmo após tantos anos, tenho dificuldade para entender o ocorrido e sinto-me um lixo sempre que penso nisso, sinto-me uma pessoa indigna e rejeitada. Uma mistura de tristeza, incompreensão e humilhação. Não é fácil conviver com isso. Mas não é algo que penso sempre. Portanto, geralmente meus dias são relativamente tranquilos. 

 Em noites como a passada, no entanto, quando tudo isso se manifesta em sonho, acordo abatido e melancólico. É algo que, aparentemente, nunca sairá de minha mente. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Sobre a vida

Tudo é cíclico. Tudo volta. O retorno é eterno. Nada fica, tudo permanece em constante repetição.

As coincidências reaparecem. Os sentimentos voltam. O pensamento se lembra daquilo que julgava ter esquecido. A raiva de ontem é o amor de hoje e a indiferença de amanhã. 

Nada faz sentido. É uma longa dança e não temos uma coreografia. Apenas dançamos. 

*-*

Resgato animais. Trato as pessoas com bondade. Faço meu trabalho com honestidade. Consumo arte diariamente. Alimento-me bem. Viajo. Plantei duas árvores na frente da casa. Planejo um jardim em breve. Entre plantas, animais, livros e música eu vivo. Um dia após o outro. O comum é extraordinário para quem tem poesia no existir.

 

terça-feira, 4 de novembro de 2025

A um antigo amigo


 

Lembro de nossa adolescência. Dos sábados inteiros ouvindo música e vendo o programa alto-falante na TV Cultura. Dos DVDs de shows que víamos juntos, dos inúmeros cds e fitas e mp3 trocados ao longo dos anos.

Das andanças sem rumo, das bebedeiras, das risadas.

Lembro de quando passamos quase dois dias em uma cidade de merda no meio do nada para ver um show, com uma garrafa de cognac barato. Da bebedeira na praça, de velhos tocando malageña salerosa em um bar e nós embriagados, sem sabermos se era real ou delírio. Da gente ouvindo Oasis madrugada adentro enquanto o próximo ônibus não chegava.

Lembro das inúmeras bandas em músicos que me mostrou. Daquele dia chuvoso em que vimos o dvd Music Bank do Alice in Chains.

Lembro de como você escrevia bem. Contos e poemas. Tinha uma energia brutal em tudo o que criava. Era uma escrita passional.

De nossas conversas sobre filosofia, política, literatura, música e tudo o mais.

Por anos a fio.

Lembro de como não nos encaixávamos na sociedade. De como não nos curvávamos a nada e nem a ninguém. De nossa rebeldia, de nosso orgulho, de nossa confusão. Estávamos perdidos, abandonados e não sabíamos de nosso futuro. Apenas vivíamos. Admirávamos os beatniks, por apreciação e afinidade. Éramos marginais subterrâneos. Ou algo assim.

Mas o tempo te quebrou. Ou, não, melhor: o tempo te consertou. Hoje, praticamente 20 anos depois de quando nos conhecemos, você se afastou, tem sua vida, sua família e sua religião. Faz parte da sociedade. E eu me orgulho de você — acredite ou não. Espero que esteja bem e em paz, seja aonde for, seja com quem estiver. Penso em você e envio amor. Eu penso em você.

p.s.: E eu? Caso leia isso um dia qualquer, posso dizer: continuo perdido. Sem rumo. Ainda afoito pelo futuro. Ainda sem me encaixar em nada, em nenhum grupo, crença ou sistema. Tornei-me um tanto solitário. Mais do que nunca. Ainda vejo meus filmes e ouço minhas músicas. Ainda bebo minhas cervejas e meus whiskeys. Ainda fumo um charuto ou outro. Ainda ando por aí sem rumo. Ainda resisto (ao que mesmo?) e luto (pelo que mesmo?). (10/02/2021)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Nostalghia

Outro dia me pus a pensar: qual foi o momento mais feliz da minha vida? O momento mais pleno, leve e marcante? Cheguei à conclusão. Foram duas épocas, na verdade. Ou melhor, um ciclo.

Foi no começo da adolescência. Tive uma infância maravilhosa e uma pré-adolescência também. Mas este período foi um tanto violento. Aquela coisa de quem precisa impressionar outros garotos, que só homens entenderão. Caçava animais e procurava brigas sempre. Essa coisa de caçar animais me assombra até hoje e é motivo para MUITA terapia. Mas é assunto para outra conversa. 

Em um determinado período, lá pelos 14 anos, eu mudei. Fiquei mais amoroso, menos violento e quis abraçar o mundo: lia e via filmes e ouvia música como se não houvesse amanhã. Dos 14 até os 18, mais ou menos, vivi assim: apenas absorvendo toda forma de arte que conseguia. Uma de minhas lembranças mais confortáveis é de quando ia a locadoras de vídeo e pegava 5 VHS (pegue 5, pague 4 e fique 1 semana!) toda semana. Minas Vídeo, Vídeo Passos e 100% Vídeo eram as minhas locadoras preferidas. Vi mais de mil filmes assim. A vida não tinha preocupação, sabe? Pegava bicicleta, com uma mochila nas costas, e ia até a locadora. Ficava um longo tempo olhando as capas e lendo as sinopses. Hoje vejo que foi um dos momentos mais felizes de minha vida: absorvia arte, não tinha obrigações ou responsabilidades, apenas vivia para isso.

Mas eu era um adolescente taciturno, introspectivo e tímido. No final de 2007 tudo isso mudou. Aprendi a conversar com desconhecidos, tive coragem para conhecer gente nova, viajei sozinho pela primeira vez, enfim, abri meu mundo. E tudo ficou ainda melhor! As pessoas mais queridas de minha vida eu conheci nesta época. A dobradinha 2007/2008 foi meu último período genuinamente feliz, realizado e completo. Não sinto falta ou quero voltar a esta época, mas sempre me lembrarei com infinito afeto.

 

27/10/2025

 O dia está ensolarado e quente. Acordei mais cedo. Alimentei os gatos e saí. De casa ao trabalho eu levo 7 minutos apenas. No trabalho, muita coisa a fazer, mas tudo sob controle. Neste exato momento ouço o álbum Nebraska '82, do Bruce Springsteen, na íntegra. Maravilhoso! A vida vai bem. Segue seu curso.

-*- 

Tenho pensado muito em pessoas com as quais não mais convivo. Aquele amigão do ensino médio. Aquele parceiro da época do exército. Aquela amiga que simplesmente sumiu. O outro que se mudou. Sabe? Eu levo a vida numa boa, na medida do possível, e deixo estar. Deixo fluir. Não incomodo ninguém nunca. Mas, às vezes, sinto muita saudade desse pessoal todo. Queria ligar pra cada um e colocar o papo em dia, marcar um café. Eu sei, eu sei que talvez não valha o esforço, mas queria. Assim, no passado. Queria e logo não quero mais - que vivam suas vidas, com o peso de suas escolhas. 

Tenho pensado muito em como as pessoas marcam nossas vidas. Tive um amigo, por exemplo, que sempre me apresentava artistas novos. Trocávamos álbuns e dicas musicais. Até hoje, quando ouço algo que penso que ele iria gostar de conhecer, sinto-me nostálgico e um tanto triste por não poder mais simplesmente compartilhar isso com ele. Ou outra pessoa, que tinha um afeto e uma visão de mundo sonhadora e um tanto ingênua que praticamente não tinha lugar neste mundo cão, que era encantadora e cheia de amor. E então mudou completamente e sumiu. Ou o outro que foi meu companheiro de viagens e bares e reuniões em casa por anos a fio. Até que sumiu. Parece-me que a vida adulta é sobre isso: perder, afastar, sumir e superar. Não culpo ninguém. Mas gostaria de dizer, sabe: ainda amo todos eles. Onde quer que estejam, envio meu amor. 

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Uma noite simples e perfeita

    Na saída do trabalho, passei no supermercado. Cheguei cedo em casa. Tomei um café e um banho bem demorado. Fiz uma lasagna com os melhores ingredientes possíveis. Sem pressa, sem preocupação. Ficou ótima. Depois coloquei Willie Nelson pra tocar bem baixinho, apaguei a luz do quarto e deixei só a luminária acesa. Comecei a ler (no momento estou lendo Satantango). Uma chuva forte caiu. As gatas se aninharam aos meus pés. Fiquei nessa paz por uma hora ou duas. Coloquei o livro de lado, apaguei a luminária e dormi.

Momentos assim são tão simples e tão perfeitos, sabe. Fico genuinamente feliz com isso. Fico em paz.